COMO É MORAR EM FLORIPA — SC

Você conhece Floripa? Já deve ter ouvido falar na ilha da Magia. 42 praias, várias cachoeiras, lugares que parecem Miami e cantos que permanecem intocados. Eleita a melhor cidade para empreender no Brasil, uma ilha de natureza e tecnologia. Um lugar de bem-estar.

Em 31 de janeiro de 2016 botei minhas malas no carro e vim sozinho pela BR 101 escutando “Ser Feliz” do Rael, as lágrimas escorrendo e o coração batendo forte. Vim fugindo da violência urbana de Porto Alegre e querendo um tempo perto do mar. Desde então moro aqui e pretendo ficar mais uns anos.

Cheguei na ilha no meio do verão, tendo já um apartamento mobiliado para dividir aluguel, com um trabalho garantido (a empresa na qual trabalhava tinha projetos e pessoas por aqui e aceitaram meu “pedido de transferência”), com um carro (facilita as coisas aqui, tudo é longe) e com muita vontade de ser feliz. Ter casa, trabalho e carro ajudou muito a me estabelecer, mas o mais importante é a vontade de fazer dar certo.

Passou um mês da minha mudança e a menina que morava comigo se foi embora para São Paulo. Mais alguns meses e outra amiga, que trabalhava comigo, foi morar na Europa. Logo outro amigo se mudou para longe. E o inverno chegou, e eu quis desistir. Só pensava na minha vida antiga, em como eu não tinha ninguém para ligar no sábado de noite. Bateu uma deprê e quis voltar para Porto Alegre. Por benção do universo minha tentativa foi frustrada, e passados alguns meses as coisas começaram a melhorar de novo. Novos amigos, mais horas de Sol no dia, mais trilhas e praias para conhecer.

Floripa tem dessas coisas: as pessoas vêm e vão. A vida tem disso, na verdade. Mas aqui tem uma peculiaridade: as pessoas se mudam constantemente. Eu mesmo já estou na quarta casa em quatro anos. E conheço muitas pessoas que também “peregrinam” pelas casas e bairros de Floripa. Mais do que ser algo de quem é jovem, é um chamado que a ilha tem para a mudança.

“Floripa é um grande hospital” já me disseram. As pessoas vêm para se curar, e depois vão. “Ou a ilha te acolhe, ou te expulsa” é também uma frase que já escutei e vivenciei muito. Eu me sinto acolhido aqui, as coisas simplesmente fluem para mim. Mas já vi gente que veio e não se adaptou: foi morar em bairros sem infraestrutura de capital e não gostou, ou chegou e não achou emprego, ou que nos primeiros dias perdeu a carteira… São coisas que acontecem e que vejo também como testes que a ilha aplica, para só aceitar quem é digno de estar aqui.

Quem dera fosse assim, porque nos últimos anos tem acontecido eventos tensos em Floripa. Alguns bairros estão ficando violentos, com roubos e até sequestros, coisa que não tinha antes. Sinto que existe uma proteção energética intensa sobre esse local, que é mesmo um ponto de cura, mas tem vindo tanta gente para cá, e tanta gente sem estrutura nem atitude para conviver, que a desigualdade social tem se mostrado em diferentes faces.

Outro ponto característico de Floripa são os imóveis: um grande percentual das casas e prédios aqui não tem escritura pública, são terrenos “de posse”. Isso significa que você pode comprar um terreno de alguém que se diz dono, mas aí depois de uns anos aparecer outra pessoa que tem outro documento de posse do mesmo terreno. Além disso, existe uma situação pouco falada que foi a distribuição ilegal de terrenos da União a pessoas físicas durante o período da ditadura militar.

O historiador Gert Shinke fez um livro sobre isso, mostrando em detalhes como esse roubo histórico aconteceu. Entre 1969 a 1974 foram emitidos mais de 12 mil títulos de terra, simplesmente “dando” terrenos da União (do Brasil) para pessoas selecionadas. Isso representa cerca de 75% de todos títulos de terra emitidos na história de Floripa, desde 1904. Ah, e alguns desses terrenos são do tamanho de Jurerê. É possível reparar como os sobrenomes das pessoas que receberam os títulos são os mesmos de pessoas que hoje tem muita influência política. Se você vier morar aqui, vai ver na época das eleições.

Outra “curiosidade” é que Florianópolis é conhecida como “ilha da magia”, e não é à toa. Na época da inquisição e da “caça às bruxas” vieram barcos com mulheres fugitivas diretamente do arquipélago dos Açores. Essas mulheres, como retrata Bianca Furtado no livro Brumas da Ilha, eram realmente especiais, e trouxeram para cá muita magia. Por sinal, aqui é comum encontrar mulheres que se intitulam bruxas — e realmente são. Eu já fiquei amigo de várias, é uma experiência incrível ressignificar conceitos e paradigmas e fazer processos de cura com elas. Venha conhecer as bruxas!

Ah sim, eu nem falei das praias, mas aí você joga no google, né? Sim, eu moro na rua que dá direto na trilha da praia, é ótimo. Acabei de ir nas dunas brincar. Tava cheio de surfistas na água. Tem trilhas ótimas aqui, tanto para iniciantes quanto para experts. Praias agitadas e outras sem ondas, e também as lagoas, para ficar sentado embaixo da figueira curtindo o Sol, e as cachoeiras, para lavar a alma.

O que eu mais gosto aqui deve ser a comida. Sim, comida vegana maravilhosa! Restaurantes a la carte, buffet livre, pizzas, bolos, hambúrgueres, tudo sem matar nenhum animal. Tem muita gente que não come animais ou derivados por aqui, e muita gente que faz comida maravilhosa. E também tem a feira orgânica de sábado na Lagoa, com os morangos da Casa da Vó, vermelhos e gigantes, que parece que caíram do céu. Tem diversas outras feiras, mas a que eu vou é essa, todo sábado pegar os pães de fermentação natural do Rica e da Ju, da MamaePapaya, devidamente abençoados pelo Alecrim e pela Amora, os filhos deles, e os pães doces recheados da Pão na Mão, do meu amigo Guimo.

Na verdade o que eu mais gosto aqui são as pessoas… Floripa deve ser um dos lugares no planeta com mais terapeutas por m². Tem muita gente que vem aberta ao novo, a se descobrir, a encarar suas sombras e se reinventar. Tem muita gente legal aqui, e as energias da ilha convergem para que você encontre as pessoas que vão ajudar você a fazer isso também.

Por isso, se vier para Floripa, não venha para consumir, venha para viver. Pode ser por um dia, um mês ou uma década, mas se lembre que a praia continua lá 365 dias por ano. Por isso não polua, cate lixo na praia se encontrar algum, seja gentil com as pessoas.

Aqui durante o ano não tem o tão famoso trânsito que falam por aí. O trânsito acontece quando a galera de fora vem, então calma, aprecie a vista… Não negocie preço, pague quanto é. Valorize quem está te servindo ou abrindo espaço para que você desfrute. Deleite-se, entre em contato com a natureza, conecte-se com seu eu interior.

Viver em Floripa é viver a magia do momento, é expandir a consciência, é aprender a viver.

Floripa, eu te amo!

Praia da Armação — Floripa

Sou escritor. Conheça meus livros em julianopoeta.com e jornadasolar.site

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