E o que você pode fazer a respeito.

NOTA: Se você sabe o que é especismo e decidiu não fazer nada para combatê-lo, não leia esse texto.

Se você sabe o que é e já está fazendo algo para mudar essa situação, você também não precisa ler esse texto, embora talvez ajude na sua reflexão.

Agora, se você não sabe o que é especismo, esse texto pode te ajudar a ser uma pessoa melhor.

Você deve conhecer o racismo, a crença de que é uma raça é superior às outras. Foi baseado nessa crença que Adolf Hitler capitaneou a caçada aos judeus, negros, gays, ciganos e diversas outras “raças” que ele e seus adeptos consideravam como indignas de habitar a Terra. Ele era racista, pois tinha a crença de que a raça ariana era superior às demais. Se você concorda que ele estava errado, continue lendo.

Já o machismo é a crença de que o homem é superior à mulher. Por causa dessa linha de pensamento temos ainda hoje dados como um estupro a cada 11 minutos e uma mulher sendo violentada a cada sete segundos no Brasil. Isso sem falar nos prejuízos causados aos homens, que representam cinco de cada seis suicidas em nosso país. Se você concorda que o machismo faz mal para nossa sociedade e nosso planeta, esse texto é para você.

O especismo é um termo cunhado pelo psicólogo Richard Ryder, em 1973, e significa a crença de que uma espécie é superior às outras espécies. Nas palavras de Richard:

“Especismo e racismo são ambas formas de preconceito baseadas nas aparências — se o outro indivíduo tem um aspecto diferente então é considerado moralmente inadmissível. O racismo é hoje condenado pelas pessoas mais inteligentes e compassivas e parece simplesmente lógico que essas pessoas devam estender sua preocupação por outras raças a outras espécies também.”

Faz sentido? Ou todos animais parecem ser realmente inferiores a você?

É com base nessa crença, no especismo, que o ser humano cria animais em sistema de escravidão, trancafiando-os em espaços minúsculos, os alimentando da maneira mais barata possível e pegando para si tudo quanto possível, desde seu leite, ovos, chifres, pele, até cada pedaço de carne do seu corpo.

Aqui ressalto que eu, assim como você, também sou um especista. Por 25 anos me alimentei de animais, e ainda hoje compro produtos derivados de animais. Por isso, saiba que não julgo você por ser especista. Eu também sou, mas estou mudando. E, se você também quiser mudar, eu posso te ajudar.

Voltando ao ponto anterior, será que somos mesmo superiores às outras espécies de animais, e por isso as comemos?

Bem, nesse ponto você pode pensar: “Sim, eu sou mais inteligente que um porco, e por isso hoje eu posso comer torresmo”.

De fato, os seres humanos são, em geral, mais inteligentes que os porcos; mas será a inteligência o critério que faz com que sejamos especistas? Se pararmos para pensar, você vai ver que muitos seres humanos não são tão inteligentes assim, porém não vão para a forca só por serem burros — muitas vezes ocupam, inclusive, cargos políticos importantes.

Também nesse ponto, sabemos que somos mais inteligentes que os cachorros, por exemplo. Mas por que, quando um cachorro morre, não comemos as suas costelas, sendo que ele tem o mesmo nível de cognição de um porco? Porque a inteligência não é o nosso critério para sermos especistas.

Talvez, no entanto, você pense: “Eu posso ser especista porque eu consigo, estou no topo e daqui ninguém me tira. Meus ancestrais trabalharam muito para que hoje eu tenha acesso a picanha na bandeja”.

Bem, isso é verdade. A questão é que esse é o mesmo argumento que embasou a escravização, principalmente de povos indígenas e africanos. Portanto, se você não concorda com a escravização de outros povos, esse argumento não faz sentido para você (especialmente se você tiver antepassados negros e/ou indígenas, e, sendo brasileir@, você muito provavelmente tem).

Os seres humanos que vieram antes de nós fizeram muitas coisas, e todas elas nos levaram a estarmos aqui e agora. É importante honrar nosso passado, porém sem apego. Um filho que nasceu de um estupro pode ser grato a seu pai por ter lhe dado a vida, mas não precisa continuar o ciclo de estupro para honrar quem veio antes.

Outro argumento que pode surgir na sua cabeça é: “Bem, as coisas sempre foram assim, então vão continuar assim”.

Nesse ponto, convido você a pensar na história da medicina, mais especificamente nas cirurgias. Há registros de cirurgias que aconteceram há cerca de quatro mil anos, porém a primeira anestesia surgiu há apenas 170 anos. Ora, se as cirurgias sempre foram sem anestesia, por que mudar? O argumento da tradição é fraco, se esvai como uma risada, ainda mais em uma sociedade em constante transição — ou por acaso você vive sem internet? Seus bisavós viveram sem…

Ainda nessa linha, você pode pensar que “o ser humano sempre foi caçador, é nosso instinto”.

Quando olhamos registros arqueológicos, vemos pedras pontudas e outros artefatos que teoricamente eram usados para caça, porém não podemos ignorar que a grande maioria dos artefatos produzidos e utilizados pelo ser humano antigo eram de madeira, e esses artefatos se perderam no tempo. Nossos ancestrais do gênero Homo habitam há cerca de 2,5 milhões de anos o planeta, e durante a maior parte desse tempo viveram sem uma dieta de origem animal, tendo uma dieta à base de frutas, raízes e outros vegetais.

Por isso, caso você pense que “Eu preciso das proteínas para viver, vou morrer se não comer carne” saiba que isso não é verdade. Eu mesmo não consumo carne há 4 anos e nunca estive mais saudável. Conheço pessoas que são veganas ou vegetarianas há décadas e exalam saúde, que têm filhos e filhas veganas e vegetarianas e são crianças felizes e fortes.

Você sabia, por exemplo, que um dos maiores medalhistas olímpicos no atletismo é vegano? Muitos atletas profissionais têm adotado uma dieta vegana (não especista), tanto por questão de saúde própria, pelos ganhos na prática do esporte e pelos benefícios gerados ao planeta.

Portanto não, você não precisa comer carne para sobreviver: pelo contrário, caso pare provavelmente seu corpo vai agradecer muito!

Certo, então vamos recapitular: o especismo basicamente acredita que a espécie humana é superior a todas as outras, e, portanto, nós temos o direito de explorar, escravizar, matar e comer as demais espécies de animais, uma vez que as consideramos inferiores.

Essa é uma crença enraizada em nossa sociedade, especialmente no Brasil, que está entre os 3 maiores consumidores de carne do planeta. No entanto, se você é contra as queimadas na Amazônia e no Pantanal, deve estar ciente de que elas são realizadas para a prática da pecuária, para que você faça seu churrasco de domingo. Quando você compra uma carne no mercado está financiando as queimadas, e assim sendo especista não apenas em relação à vaca, mas a todos os animais que morreram queimados ou por falta de alimento, uma vez que ficaram sem lar.

Se você concorda com a escravidão e com a inferiorização das mulheres, você com certeza não se importa em escravizar galinhas para ter ovos, ou abelhas para ter mel. Você não se importa em queimar centenas de quilômetros de florestas só para que o preço da carne se mantenha estável, e certamente não está preocupado com o futuro dos seus filhos, até porque, em 2060 (daqui 40 anos!), já seremos 10 bilhões de seres humanos. Será que vai ter onde criar gado para toda essa gente comer?

Agora, se você acha que racismo e machismo são crenças prejudiciais e devem ser substituídas por outras melhores, como a igualdade entre raças e a igualdade de gênero, te convido a implementar a igualdade entre espécies na sua vida — para que você não seja hipócrita, não é mesmo?

Muitos de nós são especistas sem saberem disso, assim como eu quando criança era racista sem saber, e ainda tenho atitudes racistas de forma inconsciente. Com certeza também tenho atitudes que indiretamente são especistas, como morar em uma casa que dizimou os animais que antes moravam nesse terreno, e ter um celular que exigiu mineração para ser construído.

A questão aqui não é retornar aos tempos das cavernas e viver novamente como uma presa, mas sim dar passos na direção do mundo que acreditamos. Assim como muitos e muitas lutaram e ainda lutam pela igualdade entre gêneros e pessoas com diferentes cor de pele, hoje lutamos pela igualdade entre seres humanos e outras espécies de animais. A mudança é um processo contínuo, que acontece em etapas.

Na sua próxima refeição, observe: algum animal morreu ou foi escravizado para fornecer a sua comida?

Que gosto isso tem, agora que você está mais consciente?

Se você não sabia o que era especismo e leu até aqui, parabéns! Você está um passo mais perto da mudança. Sua mente é aberta. Você é uma pessoa inteligente, disposta a aprender, disposta a se adaptar.

Repense sua dieta e seja um ser humano melhor, para si e para o planeta.

Nas palavras de Sidarta Gotama, o Buda:

Bhavatu Sabba Mangalam

Que todos os seres sejam felizes

Sugestões de documentários:

Cowspiracy

What the Health

Dieta de Gladiadores

Viver de Luz

Sou escritor. Conheça meus livros em julianopoeta.com e jornadasolar.site

Sou escritor. Conheça meus livros em julianopoeta.com e jornadasolar.site