THE BOOK — UM REALITY SHOW PARA ESCRITORES

#EPISÓDIO 5 — A REVIRAVOLTA

O que eu vim fazer aqui?

Estou em casa, quinta-feira à noite, com o computador ligado em uma reunião no Zoom. Na tela estão Anderson e Cinthia, os apresentadores do reality show. No nosso último encontro eles disseram que não iriam eliminar um participante, e haveria uma eliminação dupla na noite de hoje.

Dos onze participantes atuais, em breve serão nove. Mas parece que vai ter alguma mudança, a Cinthia disse que tem duas novidades para nos contar, e falou isso com um sorriso no rosto. Estranho. Normalmente ela fica triste quando tem que eliminar alguém…

Tínhamos como desafio da semana mandar o primeiro capítulo do livro, depois de, no desafio anterior, termos enviado a apresentação e a introdução. Trabalhei com afinco no meu texto, mas me sinto inseguro. Embora eu já tenha lançado 4 livros, esse é o primeiro livro de memórias que eu escrevo. Escrever sobre minha vida nesse formato é diferente de escrever conteúdos técnicos, como alguns que faço na Jornada Solar, e nem se compara com escrever poesia.

Narrar minhas memórias é ainda mais íntimo, porque exponho partes da minha vida que nunca contei em público. Escrevo sobre as coisas que vivi e como senti cada uma delas. Às vezes também é um desafio lembrar de cenas que aconteceram há muitos anos, e essa é a primeira vez que aplico as técnicas de criação de cenas em um texto longo. Tudo precisa estar encaixado, fazer sentido, ter continuidade. É foda. Meu primeiro capítulo do livro que está nascendo começa assim:

“O que eu vim fazer aqui?

É o que penso quando abro a porta da sala e vejo cerca de 30 homens, todos mais velhos que eu. Nos meus 21 anos de vida, tirando o exército e os vestiários masculinos, eu nunca tinha ido a um lugar que só tinha homens. O encontro parece que já está começando. Eles estão todos em pé, descalços e em círculo, alinhados ombro a ombro.

Tiro os tênis, enfio o celular dentro de um deles e me junto à roda. Logo, dois homens, os facilitadores do grupo, vêm me recepcionar: um deles, à minha frente, carrega uma pequena tigela da qual sai uma fumaça branca; o outro, que está atrás de mim, balança com força um chocalho. Eles se aproximam e, no instante em que o chocalho balança ao lado do meu ouvido esquerdo e a fumaça invade meus pulmões, algo muda. Eu não estou mais aqui. Ou, melhor, acho que eu finalmente estou aqui. Talvez seja isso que chamam de presença. Com os olhos fechados, inspiro profundamente. Meu coração diminui o ritmo. Devagar, solto o ar em um suspiro.”

Essa cena aconteceu em 2013, quando participei pela primeira vez de um grupo de homens, chamado Guerreiros do Coração. Meu desafio é contar não só o que aconteceu do lado de fora, mas como aconteceu dentro de mim. A proposta do livro é ajudar homens a empreenderem suas próprias jornadas de autoconhecimento, e para isso conto a minha.

Estou nervoso porque não sei que novidades são essas que a Cinthia traz, e tenho medo de ser eliminado e perder a oportunidade de receber os feedbacks sobre meu texto. O que será que é mais difícil: passar pela eliminação ou estar do outro lado e decidir eliminar alguém? Ou, ainda, ser eliminado, e lidar com a dor e a frustração. Com o senso de inadequação, a crença de ter sido rejeitado. Quantos traumas de infância vêm à tona quando estamos, simplesmente, jogando um jogo?

Padrões de comportamento emergem das sombras quando os obstáculos se apresentam: a vontade de fugir, de se esconder embaixo dos lençóis, de voltar para o útero da mãe. Viver tudo isso é o que me propus quando entrei nesse reality show. Eu e todas as pessoas que estão aqui, inclusive quem avalia e apresenta o programa.

É hora da resposta. Mesmo sentado no sofá, minha pulsação acelera. Estou na arena, escolhi ser protagonista e não plateia. Mas algo está diferente da última eliminação, sinto uma leveza até nas ondas do Wi-Fi.

“Nós fizemos as nossas análises, nossas leituras, trocamos algumas ideias e chegamos a algumas conclusões”, o Anderson diz. “O objetivo disso tudo é contribuir, e a ideia da eliminatória é para desafiar as pessoas que estão no reality a seguirem com mais afinco, e temos visto muito empenho de vocês. Pensando nisso a gente chegou a uma conclusão. Ao invés de fazer o modelo de eliminatória semanal, a gente pensou em mudar o nosso modelo de eliminatória, continuar fazendo classificação com pontos, mas sem eliminatória agora”. A Cinthia pega a vez e segue: “Dessa forma todo mundo continua participando. A gente chegou até nos nomes das duas pessoas que estavam nas últimas colocações, mas essas pessoas podem crescer na nota e no desenvolvimento do livro, ao invés de serem eliminadas nesse momento e perderem a oportunidade de continuarem apresentando o conteúdo delas através das aulas.”

Um misto de sentimentos me preenche. Sinto alívio de não ser eliminado, mas minha parte competitiva fica desapontada. Recebo minha nota e respiro, agradecido. Eu consegui escrever e entregar um texto novo, esse é o meu maior resultado. Percebo que estou orgulhoso por estar me dando a chance de aproveitar essa oportunidade.

Mal consigo comemorar, porém, e já recebo um novo desafio: escrever o próximo capítulo do livro e entregá-lo dentro de 4 dias.

No próximo episódio vou contar o que, para mim, é a melhor parte do The Book: os feedbacks que recebi, diretamente da Cinthia e do Anderson, sobre meus textos. São dicas preciosas e que podem servir para você também.

Um grande abraço,

Juliano Poeta

Sou escritor. Conheça meus livros em julianopoeta.com e jornadasolar.site

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